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A Vida e a Alegria de Servir

Foto: pxhere

Com muita alegria, recebi o desafio do Instituto O Pacificador no sentido de transmitir aos caros leitores algumas considerações acerca da Vida. Alguém poderia perguntar: o que um velho Soldado – assinalando que espero ter vida longa pela frente – teria a apresentar de inédito às múltiplas reflexões já conhecidas e debatidas sobre a vida, ao longo da história da humanidade?

Talvez, nenhum tema tenha sido tão obstinadamente perseguido pelo homem quanto o entendimento do sentido da vida. A essa saga, desde a antiguidade clássica, se debruçaram diferentes correntes filosóficas, bem como as mais diversas tendências religiosas. Tanto filosofia quanto religião, por sua vez, especularam sobre o caráter sagrado da vida, até nossos dias. Nesse mister, até mesmo a política sofreu influência. Nossa Constituição, por exemplo, estabelece em seu artigo quinto que todo cidadão brasileiro tem o direito a vida.

Confesso que sobre mim pairam dúvidas sobre o ineditismo daquilo que consegui elaborar, mas mantenho a certeza de que provem do que até então balizou meu caminhar. Assim, sem a tola pretensão de domar a inquietude própria daqueles que buscam, incessantemente, atribuir um sentido para a vida, tratarei, nessas poucas palavras, das minhas percepções sobre o que julgo ser o mais caro para todos nós.

Há tempos, Aristóteles nos brindou com a afirmação de que o homem é um animal político, não vocacionado para a vida em isolamento, mas sim em sociedade. Essa assertiva baseia-se na observação de que, mesmo nas nossas mais remotas referências, as relações humanas pressupõem ordem. Assim, não seria equivocado afirmar que, antes de tudo, a ordem está intimamente ligada à vida.

Nos idos do século V a. C., com o robustecimento das cidades-estados gregas – fruto da crescente urbanização resultante do aumento da atividade comercial e de uma incipiente indústria artesanal –, a humanidade viu nascer o cidadão, produto da democracia direta ora descortinada. O novo modelo deu lugar a vozes antes desconsideradas. A comunicação então, passou a ser um atributo fundamental à vida.

Nesse ambiente, diversas correntes de pensamento desenvolveram métodos de argumentação. Os sofistas surgem como os representantes do pragmatismo e os paladinos da opinião útil, baseada na prática sólida, voltada para a solução dos problemas do cotidiano. Para além dos ensinamentos voltados para o uso diário imediato, os sofistas valorizaram a capacidade de discursar, impulsionando, por resultado, o desenvolvimento da retórica, da política e da erística, esta última muito diferente da dialética, haja vista seu posicionamento hostil à investigação.

Uma das maiores figuras da filosofia grega, o ateniense Sócrates foi, inicialmente, considerado um sofista, muito em razão da sua condição de professor que, pela similitude da prática de ensinar, provocava reações análogas nas multidões, àquelas geradas pelos sofistas. Delatado por propagar ensinamentos subversivos, foi acusado de inconformismo com a religião oficial e de corromper os jovens com os seus ensinamentos. Sócrates foi o precursor das escolas estoica e cínica, tendo, com os primeiros, compartilhado o inexorável compromisso com a virtude, considerada o maior dos bens, e com os cínicos a despreocupação para com os bens terrenos.

A base do pensamento socrático, grosso modo, era a admissão de que, embora não detenhamos as respostas definitivas para os nossos questionamentos, a formulação das questões fundamentais é a essência da busca pelo conhecimento. Seu interesse central era o Bem, que para ser alcançado demandava do conhecimento. Assim, para alcançarmos o Bem precisamos do conhecimento. Logo, o Bem é conhecimento, marco central presente no pensamento grego. Platão, seu mais famoso discípulo, imortalizou o pensamento socrático por intermédio dos Diálogos, obras literárias e filosóficas que tratam da verdade, da razão e, claro, da vida.

Ora, após esse muito breve passeio pelas origens da Filosofia – ciência riquíssima e a base dos demais Saberes – é bem possível que você, paciente leitor, esteja pensando: aonde esse General quer chegar? O tema não era a Vida? Vou tentar responder, ainda me valendo, por segurança, do resgate eventual do pensamento de notórios humanistas da nossa História.

Por convicções individuais, alimento meu credo religioso, base para o meu fortalecimento espiritual e sustentáculo para buscar entender, sob a ótica de uma criatura de Deus, a inexorabilidade de Seus desígnios. Ao associar minha fé à busca pelo conhecimento disponível ao homem de carne e osso, tenho constatado, ao longo dos meus 67 anos de idade, que a vida é, como já exaustivamente declamado, um presente. Como tal, considerando a intenção de quem nos deu, devemos tratá-la bem, com atenção, carinho e zelo. Os demais ingredientes que pontuam – e temperam – nossa trajetória terrena podem ser acrescidos e gerenciados sem moderação, sendo alguns deles: a solidariedade, o respeito, a compreensão, a tolerância e a bondade. Ingredientes estes, cabe ressaltar, essencialmente vocacionados ao convívio social humano, estando, portanto, dirigidos ao relacionamento com o próximo. Qual graça teria a vida se não compartilhássemos o dom da nossa existência com outros?

Tradicionalmente mais valorizado por aqueles que já alcançaram idades avançadas (os nossos “velhinhos”), o Tempo é uma condicionante importante a ser considerada no trato do nosso Presente. A percepção comum é aquela que associa a sua passagem a algo tão natural que, via de regra, acaba desviando nossa atenção para a real importância desse que, talvez, seja o componente mais precioso da vida. Aos olhos menos argutos, o valor do Tempo é desprezado. Para aqueles mais perspicazes, ou que tenham sido submetidos a situações que os levem a refletir sobre o quão importante é administrar o passar dos anos (dos meses, dos dias, dos minutos, dos segundos…), o entendimento sobre a dimensão da grandeza do Tempo os aloca ao papel de observadores privilegiados do mistério da vida. Sim, embora ainda não tenha dito, a considero um mistério.

Para Santo Agostinho, o presente é o mais importante e o que realmente existe para o homem. Segundo o religioso nascido no século IV, o passado seria a memória do presente e o futuro uma mera expectativa deste. Valendo-se do conceito da eternidade como um atributo divino – Deus é o único Ser eterno –, Agostinho propunha que o Tempo e a Existência se vinculam na exata medida em que tudo o que é criado não pode ter o atributo de eterno. Assim, todo ser está, irremediavelmente, associado à temporalidade, exatamente por ter sido criado, não sendo eterno, e devendo necessariamente se extinguir. Mais tarde, Immanuel Kant, na obra Crítica da Razão Pura (1781), vinculava o Tempo ao conhecimento empírico, este associado às percepções dos sentidos. Sem a noção de tempo, todas as nossas representações perderiam o sentido lógico e não mais conseguiríamos organizar a realidade, ou seja, o tempo presente.

Do Tempo levo a imponderável certeza da transitoriedade. Nossa existência é uma passagem, cabendo a cada um de nós, dentro das nossas possibilidades, construir e sedimentar o caminho a ser percorrido. Seremos lembrados – ou não – pelo que fizermos de significativo na “obra” da vida. Aos pretensos “engenheiros”, aconselharia a valorizar, diariamente, o trabalho dos “pedreiros”, não esquecendo que, no “projeto”, nem tudo pode sair da forma que desejamos, mas o prazo de conclusão já foi estipulado. E nem sempre nos comunicam a data exata. Então, caprichem!

Finalizando, não poderia deixar de relatar um aspecto importante no trato do nosso “presente”: a alegria de viver. Tarefa fácil. Descobri que viver sozinho é um desperdício, assim constituí uma família que amo e, em cujo seio, sou amado. Ademais, construí amizades sólidas e sinceras, nas quais sei que posso, ternamente, confiar. Convivo com o próximo com alegria! Descobri que viver sem servir não seria uma opção. Muito cedo, influenciado por meu saudoso pai, escolhi uma maravilhosa profissão que, com o tempo, descortinou-se como um espetacular sacerdócio. Sirvo com alegria! Descobri que viver soturnamente é uma imensa bobagem. Esforcei-me para que, com bom humor e leveza, as inevitáveis agruras do dia-a-dia fossem suavizadas.

Ao longo da vida profissional, em todas as minhas diretrizes de comando, como primeiro item sempre estabeleci o preceito: “trabalhar com alegria e muito”. Alguém pode perguntar: Por que não muito e com alegria? Ora, porque na vida temos outros compromissos: com a família, com nossa saúde e com nosso crescimento individual.

Dessa forma, meu caro leitor, encerro minhas despretensiosas palavras sobre a vida. Conselhos a dar? Não cometeria essa tola imprudência… Uma pequena e humilde sugestão, apenas: pratique o bem e viva com alegria!

General Eduardo Villas Bôas